A Crítica Requer Auto Controle – Parte 1

Palavras de Aconselhamento > Relações Interpessoais

Para evitar tratar os outros injustamente numa crítica, uma regra importante a ser seguida é sempre exercitar o autocontrole. Nunca permita que suas emoções ou ego ditem o que você fala.

Quando não estamos discutindo com alguém ou tentando refutar sua posição, é fácil falar ou escrever sobre praticamente qualquer assunto de uma forma tranquila, equilibrada e responsável. No entanto, quando se trata de crítica, os nossos sentimentos pessoais em relação a outra parte ou a sua opinião podem se tornar um desafio para manter-se a compostura.

Devemos ter em mente que certos tipos de abordagens não são formas apropriadas para serem feitas numa crítica. Por exemplo, é errado apresentar uma lista de falhas e/ou erros da outra pessoa. Isso é claramente apenas um ataque a outra pessoa. Da mesma forma, é errado vasculhar buscando declarações que se contradizem dessa pessoa, escolhas de palavras erradas ou lapsos de linguagem, para assim usá-los no contra-argumento, quando é evidente que a pessoa tem diferentes pontos de vista ou significam outra coisa. É errado para buscar falhas de uma pessoa. Mais uma vez, isso só equivale a um ataque contra à sua personalidade.

Um muçulmano nunca procura as falhas e as dificuldades dos outros. Certa vez, foi levado uma reclamação até o califa ‘Uthmân que pessoas haviam se reunido na rua para beber e se divertir. Então saiu para enfrentá-los e descobriu que eles já haviam se dispersado. ‘Uthmân então louvou a Allah e não os perseguiu.

Mu’âwiyah, que foi um governante dos muçulmanos, mencionou:O Mensageiro de Allah me aconselhou a nunca procurar e expor as ações vergonhosas dos muçulmanos, porque ao fazê-lo, eu iria quase inevitavelmente corrompê-los”. [Sunan Abî Dâwûd n°.: 4888]

O conselho do Profeta para Mu’âwiyah indicam duas coisas importantes:

1. Quando investigar a vida das pessoas e expor suas falhas se torna norma na sociedade, isso conduz as pessoas para que violentamente caluniem um ao outro. Alguns falarão a verdade e os outros falarão mentiras. Alguns falarão com justiça e outros falarão com injustiça.

2. Expor as falhas das pessoas só vai piorar a situação. Todo mundo comete erros. Quando estes se tornam públicos, os erros serão automaticamente ligados ao caráter da pessoa injustamente, podendo fazer com que ela se identifique realmente com tais condutas. Quando esse comportamento se tornar frequente, ele simplesmente realizará tais ações vergonhosas devido as pesadas brincadeiras que se repetem e das críticas diárias que ocorrem sobre ele.

Devemos prestar muita atenção neste conselho deixado pelo Profeta (que a paz de Allah esteja com ele), quando nos envolvemos em críticas. Devemos nos limitar ao equivoco que deve ser abordado. Também devemos nos abster de referir às diferenças legítimas de opiniões como se fossem erros grosseiros, porém, devemos nos manter nosso foco sobre os méritos e deméritos dos vários pontos de vista existentes.

Isso nos leva a uma outra regra importante referente a crítica. Se quisermos fazer justiça, devemos tomar cuidado em apresentar com precisão a opinião queremos criticar, e dá-la em seu contexto original. Tirá-la do seu contexto pode fazer com que ela pareça mais errônea do que é. O que pode parecer um erro grosseiro quando mencionado de forma isolada, pode parecer muito mais razoável se entendido como parte da discussão mais ampla em relação a pessoa. É errado pegar as palavras de uma pessoa que aparentemente pode ser uma má escolha e apresentá-las sem as devidas e corretas declarações e fortes argumentos que as rodeiam.

Isto é explicado ainda mais enfaticamente quando o que está sendo discutido envolve algo da religião, especialmente quando provavelmente a outra pessoa está de forma muito mais dura do que você tentando apurar a verdade. Ibn Taymiyah escreve:

“Uma pessoa que faz uma interpretação visando saber qual era a intenção do Profeta, ela não deve ser acusada de descrença. Nem ele deve ser acusada de pecado caso exerça o seu julgamento e comete um erro. Este é um princípio bem conhecido que a maioria das pessoas seguem fazendo com relação as questões de conhecimento religioso prático. Quando se trata de questões relacionadas a crença, muitas pessoas declaram como crentes aqueles que cometem erros. Tal conduta nunca foi praticada pelos Companheiros do Profeta e aqueles que os seguiram. Igualmente nunca foi encontrada com os grandes estudiosos muçulmanos do passado. Na verdade, no início, apenas aqueles que estavam envolvidos em uma forma de heresia ou outra coisa que apresentar tal comportamento”. [Minhāj As Sunnah An Nabawiyyah – 5/2390240].

Quando estudamos a história intelectual do Islam e os livros escritos por grandes sábios do passado, não encontramos que algum deles tenha compilado em um tratado ou um livro todos os erros cometidos por outro sábio. Isso não significa que os sábios nunca cometem erros que precisavam ser abordadas e corrigidos, e, certamente, nós encontramos muitos escritos em que estes erros são discutidos e debatidos. O que importa é a forma como este foi realizado: com moderação, e sem fazer que a outra pessoa tenha o erro anexado em seu caráter e muito menos ela pareça gostar dos equívocos cometidos por ela.

Considere os escritos do jurista Ibn Hazm Az Zâhirî. Nós encontramos ele que, por vezes, sendo brilhante. Possuidor de conhecimento em seu saber que realmente o distinguem. Adh Dhahabi destaca alguns destes fazendo menção especial em seu famoso dicionário biográfico Siyar A’lâm An Nubalâ’. Ao mesmo tempo, encontramos Ibn Hazm cometendo alguns equívocos que são tão óbvios, que nos faz pensar como ele poderia ter cometido eles. Se alguém fosse escrever um livro compilando todas as realizações intelectuais de Ibn Hazm, seria uma grande obra que representa um gigante do pensamento islâmico. Se alguém, no entanto, for compilar um livro de todos os seus erros, seria pintar um retrato de um homem cujo intelecto não poderia escapar do literalismo mais banal.

Observações semelhantes podem ser feitas sobre Abu Hamid Al Ghazali e muitos outros sábios islâmicos ilustres. É por isso que o Profeta Muhammad (que a paz de Allah esteja com ele) disse: “Ignore (esqueça) os deslizes daquele que possui muitas coisas boas em seu crédito”. [Sunan Abî Dâwûd n.°: 4375 e Sunan An Nasa’i Al Kubra n.°: 7294].

Continuação: A Crítica Requer Auto Controle – Parte 2


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