A Crítica Requer Introspecção

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É um sinal da integridade e uma marca de bom caráter avaliar criticamente os seus próprios pontos de vista, sem esperar que outros o critiquem.

Muitas pessoas estão demasiadamente dispostas a falar de forma crítica dos outros, e até mesmo escrever livros para refutá-los. No entanto, quando alguém faz o mesmo em troca, essas mesmas pessoas ficam na defensiva. Tal atitude não favorece a boa vontade e a amizade no nosso mundo moderno, com sua pluralidade de pontos de vista.

Nossos predecessores piedosos retrataram-se de suas opiniões com bastante frequência. ‘Umar Ibn Al-Khattab emitiu certo veredicto num caso de herança. Quando um caso semelhante foi apresentado a ele mais tarde, ele interpretou de forma diferente. Quando as pessoas perguntavam a respeito disso, ele falou: “É assim que eu costumava ver o assunto. E é dessa forma como vejo agora”. [Musannaf` Abd Al-Razzaq n°: 19.005 e Musannaf Ibn Abī Shaybah n°: 31744].

Quantas vezes na história, os mais eminentes juristas e estudiosos de hadith mudaram de opinião sobre temas da lei islâmica e seus veredictos sobre determinado hadith. Quantas vezes os maiores líderes mudaram seus pontos de vista sobre as principais questões da sua época? Por que temos tantos problemas em nosso próprio pensamento, quando se trata do processo de auto-crítica, quando parece que estamos tão bem preparados para criticar os demais? Se é tão importante corrigir os outros em questões religiosas a custo de proteger a fé, da mesma forma é igualmente importante trabalhar corrigindo a nós mesmos.

Quando olhamos criticamente para nós mesmos, podemos descobrir que temos certas distorções que comprometem nossa objetividade, por exemplo, uma antipatia em relação a mudança, uma tendência de manter as coisas do jeito que são. Hoje em dia, a educação e as afiliações influenciam a forma como olhamos para questões e quais soluções devemos tomar, mesmo que nem sempre estejamos conscientes dessa influência. Esses fatores também afetam naquilo que nós estamos dispostos a olhar criticamente e naquilo que aceitamos sem questionar. A verdade ou falsidade de uma ideia, é claro, não dependem de quem pronuncia ela. Muitas ideias, por outro lado, têm vários graus de méritos, e podem sobressair de formas diferentes. Podemos entender isso intelectualmente, mas nossos preconceitos ainda pode influenciar em nosso pensamento.

É por isso que é fácil, a princípio, condenar o partidarismo, a mente fechada e a cegueira. No entanto, é muito mais difícil superar manifestações mais ferrenhas, mas muitas vezes despercebidas, manifestações de partidarismo e cegueira: um partidarismo partindo do seu próprio ponto de vista. Esta é a razão do por que ser muito mais fácil de analise criticamente as opiniões dos demais.

O fato de nossa subjetividade nos deve fazer mais cautelosos em nossa crítica com os demais. Deve nos tornar mais cuidadosos com o fim de evitar a divisão entre as pessoas, ao invés de apenas discutir suas ideias. Quando olhamos para os escritos críticos dos grandes sábios muçulmanos do passado, podemos ver essa ética na prática. Eles refutavam o livro de alguém escrevendo outro livro. Refutavam uma ideia, apresentando e defendendo um ponto de vista oposto. Quanto à catalogação apenas dos erros de outras pessoas, não encontramos nossos ilustres sábios escreverem algo desse tipo. Da mesma forma, eles raramente focavam suas críticas sobre as personalidades das pessoas que discordavam, mas sim, sobre questionar a si mesmo.

Quando criticamos algo ou criticamos os outros, devemos ter em mente que a nossa crítica é em si suscetível à crítica dos demais. Isso fará com que o nosso tom seja mais cortês e sereno. A crítica é um desafio pessoal, uma vez que não podemos fugir de nossas próprias subjetividades quando nos envolvemos nela. Nós nunca poderemos ser verdadeiramente imparciais. A objetividade absoluta é um ideal inalcançável. Este fato da natureza humana deve nos fazer ainda mais vigilantes e cautelosos. Deve nos fazer temer a Allah naquilo que dizemos e nos comportarmos de uma maneira pela qual podemos ter esperança de ganhar a Sua Misericórdia.

Por que é como Allah diz: “Porém, eu não me escuso, porquanto o ser é propenso ao mal, exceto aqueles de quem o meu Senhor se apiada, porque o meu Senhor é Indulgente, Misericordiosíssimo”. [Sura Yūsuf 13, aya 53]

Portanto, se queremos evitar a injustiça e ter honestidade e nos comportarmos com integridade ao criticar os demais, devemos reconhecer nossa egocentrismo e o fato de que podemos não estar cientes de algumas das motivações e influências por trás de nossas ações. Esta é uma confiança muito pesada.

Como Allah diz: “Por certo que apresentamos a custódia aos céus, à terra e às montanhas, que se negaram e temeram recebê-la; porém, o homem se encarregou disso, mas provou ser injusto e incipiente”. [Surah Al Ahzab 33, aya 72].

Devido a nossas limitações humanas, há sempre o perigo de que vamos agir injustamente. É por isso que os profetas e mensageiros vieram como misericórdia, assim também, com o conhecimento. Suas vidas estavam imbuídas de misericórdia. Esta é a qualidade que nos garante que não iremos cair na injustiça de surpresa.

Allah diz no Alcorão sobre Khidr (que estudiosos justamente identificam ele como um profeta): “E encontraram-se comum dos Nossos servos, que havíamos agraciado com a Nossa misericórdia e ensinado-o com a Nossa ciência”. [Surah Al Kahf 18, aya 65]

Allah deu a ele o dom do conhecimento, bem como o dom da misericórdia. Com essas duas qualidades juntas, podemos superar nossas limitações e evitar a injustiça para os outros quando nos envolvemos em críticas. Conhecimento sem piedade, mesmo quando é o conhecimento religioso, não constitui numa orientação de Allah. Da mesma forma, a misericórdia divorciada do conhecimento não pode se incorporar os ensinamentos islâmicos. As pessoas não irão se beneficiar de um sábio cujo caráter é desprovido de piedade, nem de um tolo muito compassivo, mas ignorante. O primeiro vai lhes guiar uma maneira, enquanto o segundo vai levá-los ao erro.

É por esta razão que pela forma eruditos dentre os nossos predecessores piedosos disse que, a fim de participar de debate com outra pessoa, você deve possuir duas qualidades: o conhecimento e a integridade. A primeira qualidade significa que você nunca disputará com alguém a partir de um ponto de vista da ignorância ou da maldade, enquanto o segundo significa que você nunca irá debater apenas para sobressair as custas de alguém.


Unicidade e Luz
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