A Crítica Requer Cortesia

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Gostaria de abordar um princípio de crítica e diálogo que é essencial para as relações interpessoais. Todos os seres humanos são iguais em sua composição fundamental. Todo mundo é influenciado por suas emoções, preconceitos, preocupações e tendências egoístas. Todo mundo tem seus pontos fortes e falhas. Estas qualidades entram em jogo sempre que as pessoas se envolvem umas com as outras, seja no diálogo ou em conflito.

Há vários princípios que podemos discutir a respeito de como se envolver em críticas. No entanto, estes podem ser resumidos em dois aspectos essenciais: o primeiro é cortesia, e o segundo é o conhecimento. Pode parecer mais oportuno mencionar conhecimento em primeiro lugar, mas como qualquer critica construtiva pode se não existe a cortesia? A maioria das pessoas não percebem isso, mas a cortesia é o principal fator. A Cortesia e seu papel tanto na crítica e do diálogo e devem ser devidamente compreendidas.

Sempre que a crítica e o diálogo se afastarem das regras da cortesia, estas serão levadas à injustiça e ao conflito aberto. As pessoas recorrem a todo tipo de comportamento antiético, e fazem isso em nome da verdade, da fé e da justiça. De fato, muitas das pessoas encarregadas das antigas escrituras caíram neste erro pela mesma razão. É por isso que Allah nos ordena no Alcorão (significado em português): “Observai a religião (submissão) e, nela, não vos separeis.” [Surah Ash-Shura 42: 13].

Aqueles que só conseguem chegar à verdade através das pessoas que dividem possuem pouca compreensão do Islam. O mesmo pode ser dito em relação a aqueles que não sabem de nenhuma outra forma de unir as pessoas, exceto através das mentiras.

Muitas vezes ouvimos pessoas salientando o imperativo de preservar os ensinamentos essenciais da nossa fé. Sem duvida, a cortesia e as boas maneiras estão entre estes elementos fundamentais. Quando queremos falar sobre como proteger os ensinamentos essenciais da nossa fé, devemos começar falando com cortesia. Os muçulmanos enfrentam hoje uma crise de conhecimento, sem dúvida, enfrentam a nada menos do que uma crise em sua conduta social através da perda da cortesia e das boas maneiras. A falta de consciência sobre esses valores éticos básicos devem ser uma preocupação primordial de nossos difusores religiosos e dos reformadores sociais. Na verdade, a aquisição de conhecimento e compreensão vem como consequência de valores próprios e etiquetas, e não o contrário.

Uma sociedade que funciona sem um conhecimento adequado de cortesia comum e de conduta ética é uma sociedade em declínio. A humanidade essencial através do qual Deus nos eleva acima tanto da criação é comprometida, e as pessoas afundam-se o mais baixo dos baixos. A ascensão e queda das civilizações ao longo da história atesta esse fato. Esses ensinamentos éticos não são apenas os valores subjetivos de uma determinada cultura, mas sim, uma perspectiva comum de humanidade, bem como um mandato divino. É por isso que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) disse: “Fui enviado senão para aperfeiçoar a boa conduta.” [Musnad Ahmad n°: 8595]. Ele veio para aperfeiçoar as qualidades essenciais humanas que estão latentes em todos. Para os muçulmanos, estes bons costumes são vistos como uma mensagem divina, mas eles também são algo reconhecido pela disposição natural de cada pessoa (fitrah). Em outras culturas, estes valores podem ser vistos numa luz transitória, porém estão presentes no entanto.

No entanto, quando esses valores se apresentam no contexto da revelação divina, sua pureza é assegurada, já que os motivos humanos subjetivos podem trazer as pessoas para ver o comportamento incorreto como correto. É por isso que encontramos com a esposa do Profeta A’ishah (que Allah tenha misericórdia dela) uma descrição seu marido (que a paz esteja com ele), dizendo:“A boa conduta do Mensageiro de Allah era o Alcorão. “[Sahih Muslim n°: 746].

Voltemos agora ao tema da crítica, para que a cortesia e a boa conduta formem o primeiro princípio essencial. Uma nova reavaliação e correção, incluindo a crítica objetiva e refutação de diversos pontos de vista, é um aspecto essencial e permanente da vida na sociedade. Estudiosos muçulmanos e pensadores ao longo da história sempre foram engajados nestas atividades. Em todos os campos da atividade intelectual em que os muçulmanos se envolveram, podemos encontrar livros de crítica, a crítica e a reavaliação. Alguns destes livros estão dedicados exclusivamente à refutação de algumas noções falsas ou crenças. Alguns dos mais eminentes estudiosos muçulmanos na história, como Al-Bukhari e Ahmad Ibn Hanbal, se comprometeram em escrever tais obras.

O fundador da escola de jurisprudência islamica Malikia, o eminente jurista Malik bin Anas, resumiu a perspectiva islâmica sobre reavaliação e z crítica quando disse: “As opiniões de todos estão sujeitas a serem aceitas ou rejeitadas, exceto as deste enterrado neste túmulo”, e então ele apontou para o túmulo do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). As opiniões de ninguém estão acima de qualquer crítica, exceto o destinatário da revelação de Allah.

Críticas sobre o nível do discurso intelectual baseada em evidências, argumentos racionais e claras considerações metodológicas, é algo desejável. Quando se é perseguido de uma tal forma, e não de forma aleatória e caótica, pode realizar grandes benefícios para a sociedade. Todas as pessoas à reconhecem. No entanto, esse reconhecimento tem uma consequência importante: todos e cada um de nós está sujeito a essa crítica quando se trata de nossas opiniões. Todas as nossas ideias pode ser objetos de exame minucioso por parte dos demais. Nenhum de nós está sempre com a razão.

Em nossa religião, existem algumas verdades universalmente aceitas, verdades essenciais que, como crentes, não questionamos, como as princípios básicos da fé e outros assuntos sobre o qual todos os muçulmanos estão de acordo. Devemos estar cientes, no entanto, que algumas pessoas, na defesa apaixonada de suas próprias ideias, equivocadamente elevam seus próprios pontos de vista religiosos ao nível dessas crenças essenciais, procurando evitar qualquer possibilidade de crítica.

Este não foi o caso dos maiores estudiosos do islamismo. Eles criticaram o ponto de vista dos outros, bem como os seus próprios. Estavam abertos para as críticas que receberam. Malik, por exemplo, foi criticado por seus companheiros juristas Layth bin Sa’d e Muhammad AshShaybānī, tanto que escreveu tratados críticos em relação a sua metodologia legal. AshShafi’i, falou criticamente de muitas decisões judiciais de Abu Hanifa. Todos eles mantiveram o mais alto nível de respeito pelos demais. Eles argumentaram seus pontos com respeito e cortesia, mantendo os mais rigorosos padrões de estudos. Devemos ser como eles e aceitar o fato de que tudo o que dizem ou escrevem está sujeito à ser criticado pelos outros. É fácil de professar em nossas línguas a nossa vontade de ser criticado. É mais difícil para nós estarmos verdadeiramente preparados para isso em nossos corações.

Os muçulmanos de hoje têm fácil acesso às opiniões de um grande número de estudiosos, pregadores e reformadores sociais através dos diversos meios de comunicação disponíveis. É necessário para que possam desenvolver as habilidades de pensamento crítico necessárias para peneirar todas essas informações. Não basta citar opiniões e declarações, especialmente quando as divergências surgem inevitavelmente. É comum nestas circunstâncias ouvir pessoas lamentando como há muito desacordo ao redor. Algumas pessoas começaram um chamamento para uma visão islâmica unificada ou pratica que todos possam abraçar. Isso revela um problema mais benigno, pois pressupõe que a sociedade muçulmana não pode se desenvolver de forma amigável, na presença de uma pluralidade de opiniões, que a fraternidade, a justiça e a coesão social só podem existir na ausência de pontos de vista divergentes.

Para a maioria das questões islâmicas, as diferenças de opinião se inserem no âmbito do julgamento humano (ijtihâd). Estas diferenças não são um problema em primeiro lugar. Na maioria dos casos, essa pluralidade de opinião enriquece a sociedade e proporciona uma flexibilidade muito necessária. Além disso, permite uma multiplicidade de respostas adequadas para diferentes ambientes, culturas e temperamentos, inclusive individual. A diversidade dos desafios que enfrentamos hoje, exige de nós essa ampla visão dentro de nós pode operar sem deixar de preservar os valores essenciais da nossa fé.

Se quisermos cultivar um valor que trará os muçulmanos todos juntos, devemos ser a capacidades de abraçar uma multiplicidade de opiniões e aceitar que os outros têm o direito de criticar e reavaliar nossos próprios pontos de vista. Devemos cultivar esse valor em nosso próprio coração e ensiná-lo aos nossos filhos. O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) disse: “Todo descendente de Adão é propenso a errar.” [Sunan At Thirmidhi n.°: 2499 e Sunan Ibn Maja n°: 4251].

Devemos entender como muçulmanos, que a nossa fé não está sob a autoridade de qualquer um de nós, e que todos nós somos suscetíveis a erros. O companheiro ilustre, ‘Umar Ibn Al-Khattab, que mais tarde se tornou o segundo califa do Islam, relatou o seguinte sobre si mesmo:

Estava preocupado com uma questão, quando minha esposa me disse: “Se você só fez tal e tal coisa…”

Virei-me e disse-lhe: “O que isso tem a ver com você? O que te faz tão insistente sobre um assunto que estou solucionei?”

Ela me respondeu: “Como é estranho isso ó Ibn Al-Khattab! Você não quer ouvir minha critica sobre sua opinião, porém sua filha fez isso com o Profeta!” [Sahih Al-Bukhari n.º:4913 e Sahih Muslim n.°: 1479].

Na verdade, o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) foi aberto às críticas dos demais. Seus companheiros frequentemente deram o seu parecer sobre seus pontos de vista em assuntos não relacionados a questões de fé. Seus ensinamentos religiosos, é claro, foram a revelação de Allah. Como Allah diz: “Não é dado ao crente, nem à crente, agir conforme seu arbítrio, quando Allah e Seu Mensageiro é que decidem o assunto. E quem desobedece a Allah e ao Seu
Mensageiro desviar-se-á evidentemente”. [Surah al-Ahzab – Surah 33, aya 36]

Suas opiniões e desejos pessoais eram inteiramente outra questão, mesmo quando a outra pessoa fosse uma criança. Por exemplo, Anas diz o seguinte sobre quando ele era um menino:

Uma vez, o Mensageiro de Allah disse-me para ir a algum lugar e fazer algo para ele. Eu disse: “Não”. Tinha prometido a um garoto de Madina que gostaria de brincar com ele naquele dia. Então, eu saí.

Mais tarde, enquanto eu ainda estava brincando com dois meninos, o Profeta chegou e disse: “Pequeno Anas, agora vá e faça o que eu lhe pedi”. [Sahih Muslim (2310) e Sunan Abī Dāwūd (4773)]

Esta é gentileza, cortesia e comportamento que o Islam exige de nós.


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