Ajudar os outros a reconciliar suas diferenças

Palavras de Aconselhamento » Relações Interpessoais

Quando as pessoas vivem juntas em harmonia, a vida é bela. Como é bom quando todos os membros da sociedade convivem uns com os outros num espírito de respeito e afeição mútua. É um sinal da nossa fé em Allah quando lidamos com pessoas de forma gentil e amigável.

Também faz parte da natureza humana buscar a satisfação de nossas necessidades. Algumas dessas necessidades são materiais, como alimentos, roupas e abrigo. Existem outras necessidades que são intangíveis, mas que são tão importantes para uma vida equilibrada. Os seres humanos são criaturas sociais e precisam de outras pessoas. Necessitam relacionamentos significativos. Para que as relações sociais sejam saudáveis e benéficas, estas devem ser baseadas no respeito mutuo e na dignidade pessoal. Os problemas surgem quando existe uma falta de respeito e dignidade entre elas.

O respeito mútuo não exige uma estreita relação uma vez que a base de toda a interação humana é o da dignidade humana. Allah diz [significado em português]: “E, com efeito, temos honrado os filhos de Adão”. [Surah Al-Isra’ 17: 70].

Portanto, o respeito é o princípio fundamental de nossa existência social.

Os problemas entre as pessoas são inevitáveis. No entanto, devido às pessoas serem sociais, não podem elas ficar em um estado de isolamento cada vez que surgem problemas. Nem sempre é possível evitar uma pessoa só porque ela fez algo ruim ou feriu nossos sentimentos. As pessoas precisam ser capazes de viverem juntas.

Portanto, é fundamental que as pessoas encontrem uma maneira de conviver que garanta a coesão social e permita-lhes cumprir com as suas necessidades sociais. Allah diz [significado em português]: “Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Allah, é o mais temente.”. [Surah Al-Hujjurat 49: 13].

Sim. Precisamos conhecer uns aos outros, da forma como Allah nos mandou. Temos de lidar uns com os outros em pé de igualdade e justiça, guiados pela nossa piedade. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Nenhum de vocês crerá verdadeiramente até que ele ame a seu irmão – ou vizinho – da mesma forma que deseja para si mesmo”. [Sahih Muslim – 64].

Os problemas terão lugar dentre as pessoas, não importado o quão sinceros tentamos ser. Cometemos erros já que isso às vezes é parte do nosso crescimento, pois aprendemos com nossos erros. O problema não é quando caímos em desacordo ou em disputas. O problema é quando não somos capazes de entender como resolvê-los. Às vezes, mesmo a nossa mais bem-intencionada tentativa de melhorar as coisas não adianta, e só conseguimos piorar a situação.

Às vezes, quando existem diferenças entre duas pessoas, queremos intervir e resolver o problema. No entanto, devemos ter cuidado para não corroborar na injustiça ou negar a alguém o que lhe é de direito. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) deixou isso bem claro para nós quando ele disse:

“Ajude o seu irmão, mesmo se ele é culpado ou for injustiçado”.

Os companheiros ficaram surpreendidos com esta declaração. Eles disseram: “Sabemos como ajudar o nosso irmão quando ele é injustiçado. Mas como podemos ajudá-lo quando ele é o culpado?”.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Parando de fazer mal a ele. É assim que você o ajuda”. [Sahih Al-Bukhari – 6438].

Esta é uma distinção que precisamos ter em mente quando resolvemos conflitos de outras pessoas. Ajudamos um malfeitor fazendo com que ele deixe de cometer seu comportamento ilícito. Ajudamos alguém que tenha sido injustiçado, restaurando a essa pessoa os seus direitos.

A questão permanece e junto a nossa intervenção enquanto nenhuma das partes numa disputa está disposta a ceder. Como podemos resolver esse impasse? Como reconciliar os seus corações?

1. Procure ajuda de mediadores perspicazes

Nem todos são capazes de colocar em perspectiva várias situações e ver as coisas desde uma perspectiva oposta. Estes são talentos únicos.
Allah diz esse tipo de pessoa deve ser um mediador, quando Ele diz [significado em português]: “E se temerdes desacordo entre ambos [esposo e esposa], apelai para um árbitro da família dele e outro da dela.”.  [Surah An-Nisa’ 4: 35].

E quando Ele diz: “Todavia, quando tiverem cumprido o seu término prefixado, mantenha-as [em casamento] de forma eqüitativa ou separai-vos delas de forma equitativa. [Em ambos os casos] fazei-o ante duas testemunhas dentre vós, revestidas com a justiça”. [Surah At-Talaq 65: 2].

Portanto, um árbitro deve possuir perspicácia (sabedoria) e ser uma pessoa justa. Esta é a única maneira de garantir que ele ou ela não irá inadvertidamente trazer injustiça sobre qualquer uma das partes em litígio.

2. Não recorrer a meras opiniões pessoais ao declarar alguma coisa errada.

Mesmo quando fazemos uma análise inicial da existência de culpa, também precisamos considerar as perspectivas das pessoas envolvidas. Devemos considerar como ponderar a gravidade das diversas infrações. Algumas pessoas podem considerar um determinado ato ser insignificante, enquanto outros o consideram um problema de enormes proporções. Precisamos tomar essas diferenças de perspectiva em consideração. Elas são muitas vezes o resultado do ambiente de uma pessoa, da educação ou das normas culturais.

3. Distinguir entre as ações e reações.

Quando alguém faz algo errado à outra pessoa, precisamos identificar os motivos por trás da ação a fim de remediá-la.

Quando a outra pessoa por sua vez reage à ilegalidade, é preciso abordar o assunto de uma forma um pouco diferente. Talvez a reação tenha sido menor em comparação com a queixa inicial. Por outro lado, talvez a reação tenha sido grave, tanto é que ele se manifestou mostrando o problema maior do que era em seu próprio direito. Neste caso, precisamos assessorar de uma forma adequada tanto o transgressor inicial quanto aquele que exagerou em suas explicações.

O autor da injustiça inicial deve ser impedido de persistir em seu erro, e a compensação deve ser feita. A pessoa que exagerou frente estas más ações, por sua vez, deve ser acalmada. Precisamos ser lembrados da virtude de controlar nossa ira e de manter a boa moral e conduta.

4. Distinguir entre a restauração dos direitos e a virtude da clemência.

É fundamental fazer essa distinção. Ao tentar a reconciliação entre duas pessoas, não podemos esquecer que existem queixas legítimas, nem tampouco podemos deixar de restituir a parte prejudicada dos seus direitos. Não podemos buscar uma mera e frágil reconciliação temperada com algumas pitadas de perdão, paciência e clemência.

Precisamos enfatizar os direitos e a legítima reivindicação que cada uma das partes em litígio possui. Temos de ajudar as partes injustiçadas em restaurar esses direitos. Esta é a maneira de manter as relações e a convivência entre as pessoas sobre uma base sólida.

O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) é um excelente exemplo para nós nesta matéria.

Certa vez estava endireitando as fileiras dos soldados, mostrando suas posições usando bastão fino de madeira. No entanto, um de seus Companheiros reclamou ter sido machucado por ele quando esbarrou nele com o bastão.

Em resposta a esta reclamação, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) calmamente abriu sua camisa e convidou ao Companheiro para que o golpeasse de volta. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) fez isso, apesar de não ter a mínima de intenção em ferir esse Companheiro. Neste momento, o Companheiro do Profeta de um beijo sobre o local onde ia devolver o golpe.

Podemos tirar duas lições valiosas a partir desta situação.

a. Devemos apressar em fazer as pazes quando cometemos um mal aos outros mesmo não tendo a intenção de fazer algo ruim. Devemos fazer tudo o que for possível para manter as boas relações com os outros.

b. Devemos fazer uma distinção entre o restabelecer os direitos e esperança da clemência. Podemos ver que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não deu um discurso ao Companheiro sobre as virtudes da paciência, da fraternidade e do perdão. Ele não acusou o Companheiro de ter uma má opinião sobre ele. Simplesmente se ofereceu para fazer as pazes.

Infelizmente hoje em dia, pioramos ainda mais a situação quando se trata de alguém que tenha sido injustiçado, criticando a parte prejudicada por ela não exercer a paciência e a tolerância na adversidade, quando tudo o que se realmente necessitava era simplesmente fazer as pazes.

Vemos o mesmo grau de sensatez quando `Umar, na época em que foi califa, determinou que o cristão copta deveria desonrar Ibn Amr Bin Al-‘As, da mesma forma que Ibn Amr tinha desonrado a copta publicamente. Quando a pessoa sabe que será punida de forma justa e equitativa devido às consequências de suas más ações, isso a impedirá de estar envolvida em atos ilícitos antes de cometê-lo.

Finalmente precisamos reconhecer que, quando se trata da parte que tenha sido prejudicada, necessitamos fazer uma distinção entre aqueles que estão em uma posição de força e aqueles que estão numa posição de fraqueza. Uma pessoa que possui autoridade ou que está em uma posição forte, deve ser lembrada das virtudes da clemência e ser incentivada a perdoar um infrator. No entanto, uma pessoa que é fraca e faz isso sem ter medo ou vergonha, ela não esta exercendo uma virtude. Essa pessoa está sofrendo ainda mais. A melhor maneira de restaurar a harmonia e a união social nesse caso é reparar os danos dessa pessoa.

E Allah sabe mais.


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