A moderação na legislação islâmica e seus ditames

Isto pode ser obtido através da seguinte forma:

Primeiro: Cumprir com o ijtihad[1], já que a porta ao ijtihad está sempre abierta [2].

Existem aqueles que deixam a porta aberta do ijtihad completamente aberta, fazendo que reivindiquem direito a exercer ijtihad pessoas sem qualificação suficiente, que desconhecem os textos, regras e os princípios do Islam.

Hoje em dia podemos encontrar algumas pessoas que exercem ijtihad com toda a simplicidade em questões graves e problemas espinhosos da Shari’ah, sobre o qual ‘Umar ibn Al-Khattab teria consultado os Companheiros do Profeta que participaram na batalha de Badr, antes de dar o seu parecer final[3]. Hoje, qualquer pessoa em busca de conhecimento e que não possui o preparo suficiente, se arrisca a dar sua fatua sobre um assunto controverso. Muitos eruditos da religião fogem desta abordagem, especialmente se o problema requer a reunião dos sábios juristas para que se discuta o tema juntos. Alguns pensam que a porta deve estar fechada, bastando às opiniões dos Salaf (piedosos predecessores) sobre o assunto, enquanto outros opinam que a porta deve estar aberta para todos, ainda aqueles que não estão qualificados.

Segundo: A moderação na jurisprudência e os pareceres devem ser moderados e obtidos entre os dois extremos: Tornar-se Fanático as escolas de pensamento jurídico (Madhhabs) ou eliminar-las totalmente. Em um extremo, alguns exigem que as opiniões de todos os estudiosos de questões jurídicas devem ser eliminadas porque são irrelevantes e pertencem há outro tempo. Acrescentam, ainda, que o Alcorão e a Sunnat deve ser a única referência. Por outro lado, estão aqueles que acreditam que deve ser seguida as opiniões desses estudiosos, pois eles são adequados para todas as épocas e lugares. A posição correta é aquela localizada em um meio termo entre ambas as posturas. As opiniões jurídicas destes estudiosos devem ser tomadas em conta porque eles foram os primeiros a compreender e explicar a Shari’at. No entanto, cada época tem diferentes condições e a Shari’at trata principalmente das intenções por trás das ações, os interesses públicos e individuais, e evitar qualquer tipo de prejuízo. Portanto, devemos depender destas opiniões, dadas as nossas circunstâncias e intenções, e também nossos interesses. A moderação a este respeito tem sido a de tomar as opiniões dos sábios após compreender o contexto da época, e considerar suas opiniões sabendo as falhas que possam ter. Seus escritos devem ser examinados já que suas interpretações podem variar segundo as diferentes épocas. Para entender seus escritos, devemos nos voltar para as explicações dos eruditos sobre o determinado assunto. O Islam prega a moderação entre aqueles que abandonam as escolas de pensamento jurídico e aqueles que se fanatizam por elas.

Terceiro: A moderação é uma característica do Islam e dos muçulmanos Sunnis, que se encontram entre a exigência excessiva e a indiferença indisciplinada.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou e pediu que fosse facilitado tudo o que tem a ver com religião. Cada vez que devia escolher entre dois casos, optava pelo mais simples e viável, desde que não envolvesse em cometer um pecado.

Isso elimina o aspecto fanático, que por sua vez, traz dificuldade. Aquelas pessoas fanáticas que sustentam que o caminho certo é combinado com a retidão e as dificuldades estão erradas. Seu excessivo caráter rigoroso não é nada mais que apenas um tipo de exagero que deve ser deixado de lado. A posição correta é a de ser rigorosos quando os ditames textuais assim o exigem. Somos ordenados a escolher a mais simples e possível de duas alternativas, desde que não envolva cometer algum pecado, e que não exista algum texto que a contradiga. É muito importante esclarecer este conceito quando se trata de realizar pesquisas, escrever ensaios, dar palestras e instruir aos jovens. Devemos fazer grandes esforços para pregar a necessidade de evitar ser excessivamente rígido e severo, o qual pode acabar fazendo mais dano do que beneficio, e fará que a convivência com as demais pessoas seja impossível.

Devemos adotar uma atitude moderada em todas estas áreas, pois a Shari’at assim a estabeleceu. É dito em um hadith: “O viajante que se desloca muito rapidamente nunca chega ao destino nem mantêm com vida a sua montaria”.

Outros são muito excessivos, argumentando que não se deve olhar todos os interesses comuns em absoluto e que as leis textuais devem ser seguidas ao pé da letra, pois eles representam os verdadeiros interesses, de acordo com suas interpretações. Porem são os mesmos que logo seguem essas regras de maneira superficial, sem um pingo de espiritualidade.

Nossa Shari’at é lógica, pois aponta assegurar os interesses e evitar prejuízos. Assim, uma pessoa que despreza o conhecimento dos princípios e os objetivos básicos da Shari’at carece da aplicação correta da mesma. A Shari’at Islâmica é baseada em metas, regras lógicas e conformidade com os interesses comuns. A jurisprudência é baseada no conhecimento de diferentes escolas de pensamento jurídico e faz com que os ditames textuais, ou as opiniões dos estudiosos correspondam entre si.

Quem não possua o conhecimento destas questões básicas nunca devem praticar ijtihad. Portanto, devemos adotar uma atitude moderada, uma abordagem que não negue a consideração dos interesses comuns a todos, porem tampouco, não exagerar na hora de tomar-los em consideração.

Portanto, acreditamos que os grandes eruditos como Imam Abu Hanifah, Imam Malik, Imam Ash Shaf’ii, Imam Ahmad, o xeique Ibn Taymiyat e seu aluno Imam Ibn Al Qayyim em muitos casos, afirmam que deve ser considerado aqueles interesses que correspondem com os ditames textuais. No entanto, os estudiosos atuais podem diferir com os grandes sábios em alguns casos, considerando que os interesses comuns são diferentes na atualidade.

O cumprimento adequado destes objetivos e interesses é um pré-requisito básico para o estabelecimento da moderação em todos os assuntos.


[1] Esforço do jurista para deduzir a lei que no é evidente em si mesma a partir de suas fontes.

[2] Ash Shatibi em seu livro Al Muafaqaat disse: O ijtihad tem duas realidades: A primeira é impossível que deixe de existir enquanto existam as obrigações, e a segunda, é possível que desapareça antes do final deste mundo…

[3] Disse o Imam Al Bukhari em seu livro Sahih, no Livro sobre a obrigatoriedade de apegar-se a Sunnat, capítulo 27: “Os governantes e os sábios logo depois da morte do Profeta consultavam somente as pessoas de conhecimento para tomar a resolução mais simples e pratica. Se encontravam no Alcorão ou na Sunnat se detinham a ele, se não, consultava a opinião dos sábios. O conselho consultivo de ‘Umar ibn Al Khattab eram composto de memorizadores do Alcorão sendo tanto jovens como adultos.