Como julgam os juristas muçulmanos

Os juristas muçulmanos têm a responsabilidade de verificar a autenticidade e o alcance dos textos e considerar os aspectos racionais e os objetivos minuciosamente. Ao fazer isso, examinam as intenções e consideraram o bem-estar público. A conclusão das decisões judiciais legais não deve estar baseada em um único texto (deve ser consultado todos os textos relevantes sobre o assunto), nem tampouco pode ser atribuída essa responsabilidade para aqueles que exageram e emitem sentenças finais baseando-se em meras idéias, conjecturas, nem naqueles que possuem desinteresse nos assuntos como se nada lhes atingisse.

Precisamos urgentemente o método moderado, e não o método extravagante daqueles que emitem os piores juízos sobre diversos assuntos e pessoas. Esses indivíduos baseiam suas decisões em suposições, e seguramente verão como desviadas as atitudes dessas autoridades. Como resultado, quem emitir qualquer julgamento sem ser moderado, estará se desviando da moderação que estabelece a Shari’at e do caminho correto e equilibrado entre os extremos.

O muçulmano deve considerar o seu próximo como uma pessoa correta e boas intenções; e se observa qualquer ação ou palavra imprópria, não deve se apressar em julgar-lo ou criticá-lo. Qualquer declaração que um muçulmano faça ao público em geral deve incentivar o bem e proibir o mal, não deve espalhar discórdia, conflitos e corrupção moral. Assim, tais palavras devem ser consideradas boas sempre e quando não for comprovado o contrário. Não devemos julgar as intenções ou os objetivos das pessoas considerando apenas as palavras e o comportamento que são visíveis a olho nu. Allah, Exaltado seja, é o único que sabe as intenções e os objetivos das pessoas, por isso devemos ter muito cuidado ao desconfiar das pessoas sem ter provas. Allah, Exaltado, disse: “Oh vós que credes! Evite [suspeitar a atitude dos outros], em verdade, algumas suspeitas são um pecado”. (Alcorão 49: 12).

É registrado que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a uma pessoa que estava prestes a dar o testemunho: “Acaso vês o sol? Sim, respondeu a pessoa. Quando fores testemunha de algo tão claro como o sol, dê o seu testemunho, caso contrário não[1]“.

Hoje, a necessidade de um pensamento moderado está se tornando mais evidente. Os jovens, as pessoas comuns e ainda os dignitários que vivem num estado de confusão e se encontram dispersos entre um modo de pensar excessivamente rigoroso ou uma concepção puramente emocional. A percepção e o equilíbrio na maneira de pensar são elementos indispensáveis; as emoções e o zelo religioso não devem ser privados de um raciocínio equilibrado. Quem deixar suas emoções ser a força motivadora sem buscar o conselho dos sábios, e ignore as instruções daqueles que possuem autoridade sem fundamentar a sua atitude em princípios jurídicos firmes, estará seguindo o método dos Khauaajiris ou dos Mutazilas e daqueles que seguem cegamente seus desejos.

Aqueles que se deixam levar por suas paixões estão mergulhados nela simplesmente porque segue meramente as suas emoções, não as tendo controle por critério algum nem pelos textos revelados. Os Khauaarijis disputaram com os Companheiros do Profeta, a ponto de assassinar o Califa ‘Ali ibn Abu Talib. Mas quem matou ‘Ali Ibn Abu Talib? Foi um dos inimigos do Islam? Não! Foi um muçulmano que cumpria com as suas orações voluntarias e jejuava durante o dia; seu nome era ‘Abdur Rahman Ibn Malyan, o Kharajita. Ele havia sido enviado anteriormente por ‘Umar Ibn Al Khattab ao Egito para cumprir o desejo de ‘Amr Ibn Al ’As, que pediu ‘Umar lhe enviasse alguém para ensinar as pessoas recitarem o Alcorão. ‘Umar enviou uma mensagem para Ibn Al ’As, dizendo: “Vos envio a ‘Abdur Rahman Ibn Malyan, um homem correto. É meu desejo que o recebas na sua chegada e conceda-lhe um lugar em que possa ensinar as pessoas a recitar o Alcorão.”

‘Abdur Rahman Ibn Malyan vivia no Egito até a ascensão do Khauajiris, que apareceram pela primeira vez no Iêmen, e logo se mudaram para o Egito, onde começaram aumentar em número. Foi influenciado por eles, porque era um homem correto, sensível e introvertido com pouco conhecimento religioso fora a memorização do Alcorão. Quando ele recebeu a ordem para matar ao exemplar Califa ‘Ali ibn Abu Talib, não hesitou em fazê-lo. Quando foi capturado por isso, não estava arrependido da sua ação, e até chegou a dizer: “Não me mate de uma só vez, cortem-me as extremidades diante dos meus olhos para ver como as cortam na causa de Allah”.

A paixão exagerada em temas religiosos faz com que as pessoas acreditem que certos atos são certos, quando na verdade eles são hediondos e condenados pela própria religião. Todas as formas de emoções intensas, fanatismo religioso, suposta jihad e o extremismo são rejeitados pela moderação. Embora seja praticado em nome da religião, em muitos casos simplesmente fazem com que as pessoas se afastem da religião. Tais pessoas foram combatidas por ‘Ali Ibn Abu Talib, Ibn Abbas, Mu’auiyah e também pelos Califados Omíadas e Abássidas. Em todos os séculos, as pessoas que se apegam a moderação lutam contra os extremistas, já que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos advertiu contra eles.


[1] Ad Darimi em seu livro Kashf Al Khafa 1781. Ver Nasb Ar Raia 4/82.